Antibióticos (Parte II): A história de como o feitiço se voltou contra o feiticeiro

OPINIÃO. Célia Manaia, Docente e Investigadora da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, Porto

“A humanidade dispõe essencialmente de duas maneiras de se livrar de infecções por bactérias. As vacinas, que criam defesas no corpo humano de modo a prevenir a invasão por micróbios específicos, e os antibióticos, que apenas servem como remédio. Isto é, só actuam quando a bactéria já iniciou a invasão. Há muitas infecções bacterianas, talvez a maioria, para as quais não se justifica ou não é possível desenvolver vacinas e portanto os antibióticos são mesmo a única alternativa. Dito de outra forma, a humanidade está ainda muito dependente dos antibióticos para poder fazer frente às infecções bacterianas. 

Aquando das primeiras utilizações de antibióticos, os médicos viram aperceberam-se logo que algumas bactérias eram naturalmente resistentes. Não era de estranhar. Afinal, os antibióticos eram produzidos na natureza e era bem possível que as bactérias estivessem habituadas a conviver com eles. Tudo fazia sentido. Bastava encontrar novos antibióticos que pudessem matar as bactérias resistentes e a situação estaria controlada. Ao longo de cerca de 50 anos seguiu-se este raciocínio.

Mas não tardou que o cenário começasse a mudar. Cada vez se encontravam menos substâncias naturais com potencial para se transformar num antibiótico de sucesso. Em consequência, a indústria farmacêutica foi perdendo o interesse e entusiamo anteriores. Nos hospitais de todo o mundo, sobretudo na Europa e Estados Unidos da América, cada vez surgiam mais relatos de infecções causadas por bactérias que resistiam a antibióticos, que anteriormente tinham sucesso no tratamento no mesmo tipo de infecções. As consequências do excessivo e incorrecto uso de antibióticos pareciam estar a vir ao de cima. Muito simplesmente, as bactérias tinham reagido aos anos e anos de abuso. No corpo humano, no corpo dos animais ou no de outros animais e no ambiente, foram-se adaptando à vida na presença de antibióticos. No início em minoria, as bactérias que conseguiam resistir a antibióticos começaram a tornar-se cada vez mais abundantes e a dispersar-se no ambiente.

Rapidamente se percebeu que as bactérias faziam passar entre si informação que as tornava resistentes a antibióticos. Aparentemente não eram respeitadas quaisquer fronteiras. Bactérias que viviam no ambiente (por exemplo em água) podiam passar a sua informação para outras que causam doença em humanos. Por outro lado, as resistências mais graves, observadas inicialmente apenas nos hospitais, pareciam escapar-se para o ambiente, a uma velocidade assustadora. A própria globalização e livre circulação de pessoas e bens parecem ter ajudado a espalhar esta praga silenciosa. Perante algumas evidências dadas pela ciência e vividas por pacientes e médicos, começaram a subir de tom os avisos sobre a importância de uma adequada administração e uso dos antibióticos. Mas, mesmo assim, a sociedade parecia viver alheada de um problema que é, de facto, de todos. Para grande alarme das autoridades de saúde pública, em 2010 surgia na Europa, uma bactéria super-resistente a antibióticos. Ao que parecia, ter-se-ia escapado da India ou do Paquistão, sendo trazida para a Europa por pessoas que ali se deslocaram para fazer transplantes renais.

Ao longo das últimas décadas o ocidente foi transferindo algumas das suas fábricas de produção de antibióticos para o continente asiático, designadamente para a India. Os baixos custos de mão-de-obra e ausência de legislação ambiental, fazem com que naqueles países a produção de antibióticos seja muito mais rentável do ponto de vista económico. Graças a essa ausência de legislação, em alguns rios nas imediações das fábricas, a concentração de antibióticos atinge níveis mais elevados do que os utilizados para tratar uma infecção! Essa mesma água é usada para as pessoas se banharem, cozinharem e beberem. Não seria de admirar se daqui a uns anos surgissem mais algumas bactérias super-resistentes vindas de tais paragens.

Uma coisa parece ser certa, onde houver bactérias (e elas estão praticamente em todo o lado), haverá algumas que são resistentes a antibióticos e estas não hesitarão em mostrar a sua força se forem pressionadas a tal.”

Part I do artigo Antibióticos AQUI

António Orlando

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