POBREZA. “Nem há noção para tanto desagrado da vida”

“Estamos mesmo tristes, mesmo desanimados que nem há noção para tanto desagrado da vida”. O desabafo é de Vítor Marinho, de 34 anos, companheiro de Ana Ribeiro, de 22 anos. O jovem casal vive há cerca de um ano naquilo que seria a garagem de uma habitação iniciada pelo progenitor do rapaz mas que nunca chegou a ser concluída nem legalizada. O número de polícia – 252 – é talvez o maior sinal de urbanidade que mora naquele local da rua da Presa de Vide – Légua, na freguesia de Várzea, Aliviada e Folhada, no concelho do Marco de Canaveses. As condições de habitabilidade são miseráveis.

O casal alega que não tem dinheiro quer para o licenciamento, quer para acabar a casa, nem tão pouco para alugar um outro espaço onde pudessem viver com dignidade. “Teria que ser sempre uma casa, numa aldeia, porque Vitor, fruto dos problemas psiquiátricos de que padece, não se adapta a viver, fechado, num apartamento”, explica Maria Queirós, mãe do rapaz. Dizem que já pediram apoio à Câmara do Marco, através dos serviços sociais, mas que a ajuda tarda a chegar.

Os rendimentos do casal, atualmente são 589 euros. Quatrocentos euros são de um part time, em teletrabalho, de Ana Ribeiro e 189 euros que Vítor Marinho recebe do Rendimento Social de Inserção.
O espaço herdado após a morte do pai do Vítor Marinho tem como teto uma placa de cimento. Em dias de chuva a placa é um passador de água. Falar de humidade, é redundante.

As frestas da porta metálica são “entupidas” por farrapos de forma a criar obstáculo à entrada do frio e da água em dias de chuva. “Já basta a que entra pelo teto”, refere o jovem.
No interior, qual open space dos sem abrigo, a garagem assemelha-se a uma arrecadação… Não há paredes divisórias. Caixotes de papelão acolhem roupas e haveres, que no meio daquela desordem, tudo parece lixo.

Há entrada, há uma área a que se poderá apelidar de cozinha. Lá mora um pequeno fogão a gás e um armário com alguns frascos e pacotes. No lado oposto, num pequeno cubículo de três paredes ao alto e sem porta encontra-se a casa de banho. Porque não há saneamento, nem fossa, as necessidades básicas são feitas num balde.

Ao fundo da “habitação”, num dos cantos, avista-se uma cama de casal, que serve também de escritório a Ana Ribeiro. A sala, chamemos-lhe assim, também serve de quarto à mãe de Vítor Marinho. A cama da mulher são duas tábuas alinhadas que servem de estrado. O colchão são cartões de papelão. “Ultimamente tenho pernoitado aqui, porque o meu filho tem passado mal”, justifica a mulher com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto abaixo. Os rendimentos, como funcionária do Hiper Continente, “não chegam para ajudar”o filho, garante.
É neste antro que Vítor e Ana vivem aqueles que seriam os seus melhores anos.
Câmara não apoia reconstrução ilegal
A Câmara do Marco diz que só pode apoiar a reconstrução da habitação quando a família legalizar a construção, “ou em alternativa foi ainda proposto à família o arrendamento de uma habitação, para que, mediante o contrato de arrendamento, pudessem ser consideradas outras modalidades de apoio, mas a família recusou essa solução”. “Neste momento” a Câmara diz que “não existem fogos disponíveis para habitação social” e que a família se encontra em lista de espera.


