Os desafios que as famílias enfrentam na Era Digital foram o foco da mesa redonda “O Inimigo Silencioso: Quais os desafios familiares na Era Digital?”, realizada no âmbito das Conversas de Igual para Igual do I Congresso Internacional de Intervenção Comunitária e Transformação Social, a decorrerem no Cine Teatro de Amarante. A sessão desta manhã contou com a participação de Maria João Horta, especialista em Cidadania e Educação Digital, e Rute Santos, professora associada do Instituto de Educação da Universidade do Minho.
As duas investigadoras alertaram para os impactos do uso excessivo de ecrãs em crianças e adolescentes, sublinhando que este fenómeno representa um “inimigo silencioso” que afeta o desenvolvimento cognitivo, emocional e social das novas gerações.

Riscos invisíveis e a responsabilidade das famílias
Maria João Horta apresentou dados recentes do estudo internacional Health Behaviour in School-Aged Children (HBSC), que envolveu 280 mil jovens entre os 11 e os 15 anos, em 44 países. Segundo a especialista, 11% dos jovens apresentam uso problemático das redes sociais, com sintomas de abstinência e impacto negativo na vida escolar e familiar.
A investigadora destacou a necessidade de “trabalhar com as comunidades e com as famílias” para promover um uso equilibrado e consciente da tecnologia, sem ignorar as oportunidades que o digital oferece. “Não podemos rejeitar o mundo digital, mas temos de aprender a viver nele com responsabilidade”, afirmou.
Impactos científicos do excesso de ecrãs
Horta apresentou ainda as recomendações da Direção-Geral da Educação para o bem-estar digital, que orientam escolas e famílias sobre como prevenir e atuar perante sinais de dependência tecnológica, sublinhando que “a literacia digital e a vigilância parental são essenciais para proteger as crianças”.

Por sua vez, Rute Santos apresentou uma análise científica sobre os efeitos neurobiológicos e comportamentais do tempo de ecrã em crianças e adolescentes. Citando várias revisões sistemáticas, a investigadora apontou ligações entre o uso prolongado de dispositivos e menor desenvolvimento cognitivo, risco de obesidade, sintomas depressivos e problemas de atenção.
Santos sublinhou ainda que as redes sociais, potenciadas por algoritmos de inteligência artificial, promovem dependência através da estimulação das vias cerebrais associadas à dopamina, comparável à provocada por substâncias aditivas. “Os algoritmos são desenhados para reter a nossa atenção e reforçar o comportamento de dependência”, alertou.

A docente da Universidade do Minho defendeu uma utilização cautelosa da tecnologia em contexto escolar, apenas como complemento pedagógico, e elogiou as medidas que limitam o uso de telemóveis nas escolas portuguesas. “Precisamos de equilibrar o uso da tecnologia com o sono, a atividade física e o contacto humano”, concluiu.
Inimigo silencioso, um desafio coletivo
As duas especialistas convergiram na ideia de que a resposta ao “inimigo silencioso” deve envolver famílias, escolas e comunidade. O equilíbrio entre competências digitais e bem-estar emocional surge como a prioridade central. “Este é um desígnio de todos”, afirmou Maria João Horta, defendendo que a cidadania digital é hoje um pilar essencial da educação e da saúde pública.
A vereadora com o pelouro da Coesão Social da Câmara Municipal de Amarante, Eugénia Teixeira, destacou que o I Congresso Internacional de Intervenção Comunitária e Transformação Social representa “um marco importante” e “um novo patamar” na iniciativa Amarante Igual para Igual, que já vai na sua 11.ª edição.
Segundo a autarca, o congresso pretende sensibilizar a comunidade para a importância do trabalho em rede, envolvendo escolas, vizinhos, instituições e famílias, na resposta aos desafios sociais e às transformações das dinâmicas familiares contemporâneas.
Eugénia Teixeira salientou que temas como “O Inimigo Silencioso” — que aborda os riscos da era digital — refletem preocupações que vão além do uso da tecnologia, abrangendo também as mudanças nos modelos familiares, o envelhecimento, a diversidade e a inclusão.

A vereadora defendeu que a proximidade, a comunicação eficaz e a escuta ativa das famílias são essenciais para uma verdadeira transformação social. Considera fundamental criar plataformas de comunicação que respeitem o sigilo e a identidade das famílias, mas que permitam respostas mais céleres e coordenadas entre os diferentes agentes sociais.
Reconhecendo que Amarante é um exemplo de intervenção social próxima e humana, Eugénia Teixeira admitiu, no entanto, que persistem desafios, nomeadamente a falta de recursos e a necessidade de maior rapidez na resposta às situações de vulnerabilidade.
Por fim, sublinhou que este congresso é também uma oportunidade para atualizar práticas com base na investigação científica e nas experiências de especialistas nacionais e internacionais, com o objetivo de reforçar uma Amarante mais justa, inclusiva e solidária.
O congresso, que decorre em Amarante, reúne investigadores e profissionais de várias áreas com o objetivo de refletir sobre o papel das comunidades na transformação social, uma iniciativa integrada na Campanha Amarante de Igual para Igual, promovida pelo Município de Amarante em parceria com a Universidade Portucalense UPT e com o apoio científico do CINTESIS.UPT/RISE Health.




