Mais de 21 mil passageiros já recorreram ao serviço LIGA desde 2021. Para uns, representa metade do negócio; para outros, significa conseguir manter o emprego, ir ao médico ou simplesmente deixar de depender de familiares. A Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa prepara agora a expansão do projeto e admite alargar as viagens entre concelhos.

Durante décadas, em muitas aldeias do Tâmega e Sousa, a falta de transportes públicos significava isolamento. Havia quem percorresse quilómetros a pé até à paragem mais próxima, quem adiasse consultas médicas por não ter como chegar ao centro de saúde ou quem dependesse da disponibilidade de familiares para ir trabalhar. Em muitos casos, a alternativa era o táxi, mas o preço tornava essa opção incomportável para grande parte da população.
Foi para responder a essa realidade que nasceu, em 2021, o projeto-piloto LIGA – Transporte Público a Pedido, promovido pela Comunidade Intermunicipal (CIM) do Tâmega e Sousa. Cinco anos depois, o serviço soma mais de 21 mil passageiros transportados, cresce de forma consistente e prepara-se para chegar a novos concelhos, assumindo-se como uma resposta cada vez mais relevante para os territórios de baixa densidade.
Para Telmo Pinto, secretário executivo da CIM, cuja entidade é Autoridade de Transportes da região, o modelo veio preencher uma lacuna que dificilmente poderia ser resolvida pelo transporte público convencional.
“O transporte a pedido adapta-se às necessidades de localidades onde não existe oferta regular ou onde os horários dos autocarros não respondem às necessidades das populações”, explica.
Os números mostram essa evolução. Em 2025 foram transportados 4.902 passageiros e, até ao final de julho deste ano, o sistema já contabilizava 3.278 utilizadores, um crescimento de 27,2% face ao mesmo período do ano anterior. Desde o arranque, realizaram-se mais de 21 mil viagens de passageiros e percorreram-se centenas de milhares de quilómetros entre aldeias, vilas e sedes de concelho.
Metade do negócio nasceu graças ao LIGA
Em Cinfães, Paulo Saraiva conhece bem essa transformação. Com apenas dois anos de atividade no setor, aderiu praticamente desde o início ao projeto e hoje garante que o transporte a pedido representa cerca de metade da faturação da empresa.
“É uma ajuda para a população e para nós também. Vale a pena e até incentivo outros colegas a aderirem”, afirma.
O empresário trabalha em Baião, Resende e Cinfães, graças às licenças que possui nos três concelhos, e organiza diariamente os serviços através da plataforma informática utilizada pelo programa.
Explica que o funcionamento é simples: os passageiros fazem a marcação até às 15 horas do dia anterior e os percursos são distribuídos pelos operadores, permitindo otimizar deslocações e agrupar utilizadores com destinos semelhantes.
Num território onde o tradicional serviço de praça é reduzido, o impacto económico foi imediato.
“O transporte a pedido veio criar trabalho que antes simplesmente não existia”, resume.
Mas Paulo Saraiva considera que o verdadeiro ganho está nas pessoas que passaram a ter acesso a serviços básicos.
Muitos utilizadores deslocam-se para consultas médicas, mas há quem utilize o serviço para fazer compras, tratar de documentação, ir ao banco ou resolver assuntos nas sedes de concelho.

“O transporte não serve apenas para a saúde. Serve para a vida das pessoas”, observa.
O taxista lembra o caso da aldeia de Veloso, em Tendais, no concelho de Cinfães, onde alguns habitantes percorriam cerca de quatro quilómetros até à paragem de autocarro mais próxima.
“Para aquelas pessoas isto mudou completamente o dia a dia. É uma mais-valia enorme.”
Apesar do sucesso, identifica aspetos que podem ser melhorados. Defende que a reserva deixe de ser obrigatória na véspera e possa ser feita apenas algumas horas antes da viagem, permitindo responder a situações imprevistas. Também considera demasiado limitada a regra que permite apenas dois dias de utilização por semana.
“Muitos passageiros precisam de se deslocar mais vezes. Essa limitação faz pouco sentido para quem depende realmente deste transporte.”
“Sem este serviço gastava quase quatro vezes mais”
A poucos quilómetros dali, em Ancede, Baião, Estrela Cardoso, de 55 anos, conhece bem essa realidade.
Funcionária de um lar-hotel em Campelo, trabalha por turnos e recorre ao LIGA sempre que faz o horário da tarde, precisamente quando deixa de existir transporte público compatível com a sua jornada.

“Se não existisse este serviço, tinha de ir de táxi normal ou depender dos meus filhos e de colegas. Faz-me muita falta”, conta.
A diferença sente-se na carteira. Cada viagem através do LIGA custa-lhe três euros. Num táxi convencional pagaria cerca de onze.
“Todos os euros contam. Se tivesse de pagar táxi todos os dias, ao fim da semana era uma despesa muito pesada.”
Estrela admite, contudo, que gostaria de ver o serviço reforçado. Atualmente apenas o pode utilizar dois dias por semana, obrigando-a nos restantes dias a recorrer a boleias, colegas ou ao táxi tradicional.
“Nem que tivesse de pagar um pouco mais. Se pudesse usar mais dias ajudava muito quem, como eu, depende deste transporte para trabalhar.”
Também os horários poderiam ser ajustados. Para iniciar o turno às 15.30 horas chega a Baião bastante antes da hora de entrada, enquanto ao final do dia precisa de sair rapidamente para não perder a viagem de regresso.
“Às vezes nem consigo jantar antes de sair. Tenho de deixar tudo preparado para apanhar o táxi.”
Quando foi contactada para falar da experiência, confessa que teve um receio inesperado.
“Pensei logo que me iam dizer que o serviço ia acabar. Assustei-me porque para mim faz mesmo muita falta.”
Hoje considera que o LIGA é igualmente essencial para muitos idosos das freguesias mais isoladas.
“O táxi leva as pessoas mesmo à porta do centro de saúde e ajuda quem tem dificuldades de mobilidade. Isso faz toda a diferença.”
Expansão continua e novas ligações estão a ser estudadas
Depois do arranque em Baião, Cinfães e Resende, o serviço foi alargado a Celorico de Basto e, este ano, chegou a Lousada. Nos próximos meses deverá entrar em funcionamento em Castelo de Paiva, Marco de Canaveses e Penafiel, seguindo-se posteriormente Felgueiras e Paços de Ferreira.
Telmo Pinto acredita que o modelo continuará a crescer, sobretudo porque responde às necessidades de uma população envelhecida e dispersa.
“Não faz sentido termos autocarros praticamente vazios a circular. O transporte flexível será cada vez mais a resposta para estes territórios.”

A CIM prepara ainda uma alteração considerada estratégica: permitir viagens entre concelhos para deslocações relacionadas com cuidados de saúde.
“Há pessoas que precisam de ir aos hospitais de Penafiel ou de Amarante e suportam custos muito elevados com o táxi. Estamos a estudar essa possibilidade, naturalmente com regras bem definidas.”
Enquanto esse passo não chega, nas aldeias do Tâmega e Sousa o impacto já é visível. Para alguns taxistas, o transporte a pedido tornou-se uma importante fonte de rendimento. Para muitos passageiros, representa muito mais do que uma viagem: é a diferença entre conseguir trabalhar, ir ao médico ou simplesmente continuar ligado ao resto do território.


