Treze jovens passaram pelo casting. Agora, alguns deles estão diante das câmaras numa curta-metragem realizada pelo músico Noiserv (David Santos), e produzida pela Casota Collective. Entre rios, escolas e tempos de espera, Baião transformou-se durante alguns dias num cenário de cinema.
Há momentos em que o silêncio não é ausência de som. É parte da rodagem. A câmara está preparada, os atores aguardam, a equipa confirma posições e alguém pede atenção. Depois vem a claquete, o “ação” e, durante alguns segundos, tudo o que existe é aquilo que está a acontecer diante da objetiva.

É assim que Baião tem vivido, por estes dias, a rodagem de uma nova curta-metragem integrada no JUVE – Encontros de Cinema e Literatura Infantojuvenil. Entre os protagonistas estão jovens do concelho que, depois de um processo de inscrição e casting, passaram da expectativa para a experiência concreta de fazer cinema.
Martim Severino, aluno do 10.º ano, já conhecia a sensação. Tinha participado num casting anterior e guarda dessa experiência uma memória suficientemente positiva para voltar a tentar. A vontade ganhou força depois de assistir à estreia da curta-metragem realizada no ano passado.
“Já tinha participado no casting uma vez e tinha sido uma experiência bastante positiva”, conta. Quando soube que tinha sido novamente selecionado, não escondeu a satisfação. “Fiquei contente, logicamente, porque o objetivo desde que fiz o casting era entrar.”
Agora, diante das câmaras, percebe que fazer cinema é muito mais do que representar.

“Os profissionais são bastante competentes e, se tenho aprendido uma coisa enquanto realizo estas curtas-metragens, é que este mundo do cinema é muito mais mágico do que parece”, afirma. A magia, diz, está tanto no resultado como no próprio processo, feito de repetições, esperas e pequenos detalhes que o público dificilmente vê quando assiste ao filme acabado.
A experiência também lhe trouxe algumas surpresas. Uma delas foi o cenário. “Não estava à espera que fosse no rio”, admite, entre o entusiasmo e a descontração de quem aproveita os intervalos da rodagem para mergulhar no ambiente.
Mas aquilo que mais o entusiasma é simples: estar diante da câmara. “Acho que todos nós queremos ter um lugar à frente da câmara”, resume.
Se há uma parte do processo que já antecipa como particularmente exigente, é a que acontece quando as filmagens terminarem. “O processo de edição, completamente”, responde, apontando para tudo aquilo que ainda será necessário fazer com imagem e som. A sua definição para a experiência, contudo, não deixa margem para dúvidas: “Isto para mim é uma experiência única.”

Para Madalena Magalhães, aluna do 11.º ano, a participação no filme aproxima-se de um sonho antigo. Faz teatro desde os oito anos e a vontade de ser atriz acompanha-a desde criança. Por isso, quando recebeu a notícia de que tinha sido escolhida, a reação foi imediata.
“Fiquei muito feliz. Eu fico sempre muito feliz. Eu comecei a gritar na minha casa, sinceramente, porque era uma coisa que eu queria muito.”
A personagem que interpreta coloca-a perante um desafio diferente. A história acompanha uma adolescente que vai perdendo gradualmente a audição e que, ao longo da narrativa, é confrontada com uma realidade que altera a forma como se relaciona com o mundo.
Para Madalena, é também uma história sobre atenção e sobre aquilo que tantas vezes só valorizamos quando deixamos de o ter. “É importante nós termos esse cuidado”, considera, defendendo que a curta pode levar o público a refletir sobre situações que podem estar a acontecer perto de si sem serem imediatamente percebidas.

“Viver a vida como se não houvesse amanhã, porque nós nunca sabemos como vamos estar amanhã”, acrescenta.
A atriz já tinha participado noutras curtas-metragens, mas considera este projeto particularmente exigente, sobretudo pela componente emocional. Há cenas em que não basta decorar ou dizer um texto. É preciso transmitir uma emoção de forma convincente.
“Temos que mostrar ao público a emoção que nós estamos a sentir e muitas vezes isso é um bocado difícil”, explica. E há depois o outro lado da câmara: conseguir que os ângulos, os enquadramentos e todo o trabalho da equipa traduzam aquilo que os atores estão a tentar transmitir.
Apesar das dificuldades, garante que está a desfrutar de tudo. “Eu amo atuação, eu amo tudo o que tem a ver com atuação.” A presença de amigos que já não via há algum tempo e o ambiente criado pela equipa tornam a experiência ainda mais especial.
A palavra que escolhe para definir estes dias é a mesma que usa para descrever aquilo que sente quando entra no universo das filmagens: “Mágica.”

Uma história sobre ouvir
Por detrás da câmara está David Santos, o músico conhecido artisticamente como Noiserv. A curta não nasceu de uma ideia prévia da equipa, mas de um convite de Rui Tendinha, curador do JUVE – Encontros de Cinema e Literatura Infantojuvenil de Baião, que vão decorrer entre 30 de setembro e 3 de outubro de 2026. A proposta tinha duas condições essenciais: o filme teria de ser rodado em Baião e deveria envolver jovens do concelho.
Noiserv aceitou e chamou a Casota Collective, produtora com a qual trabalha habitualmente. A partir daí começou um processo de procura: perceber Baião, encontrar uma história que pudesse ser filmada no território e, sobretudo, descobrir um tema que fizesse sentido para a equipa.
A música e o som acabaram por assumir um papel central.
“Gostaríamos que existisse aqui um foco grande sobre o som”, explica David Santos. Daí nasceu a personagem que vai perdendo progressivamente a audição e uma narrativa que procura explorar, de forma sensível, o que acontece quando alguém deixa de conseguir fazer algo que até então dava como garantido.
“Perceber o que valorizamos ou não daquilo que temos quando, de um momento para o outro, podemos ficar sem isso”, resume o realizador.

O filme pretende também que o espectador preste atenção aos sons que normalmente passam despercebidos. Não se trata apenas de contar uma história sobre uma personagem com uma dificuldade sensorial, mas de colocar quem vê o filme perante a própria relação com aquilo que ouve.
Sem revelar demasiado da narrativa, David Santos admite que esse é um dos desafios criativos do projeto: contar uma história que permita ao espectador experimentar, ainda que de forma indireta, a importância do som.
A aprendizagem acontece entre takes
Para Telmo Soares, da Casota Collective, uma das primeiras surpresas foi perceber como os jovens rapidamente se adaptaram às exigências de uma rodagem.
“Até agora a experiência está a ser muito positiva. Os miúdos estão entusiasmados, estão focados”, descreve.

Há, naturalmente, momentos de maior entusiasmo, mas a avaliação da equipa é positiva. Mesmo quando uma dezena de jovens está concentrada no mesmo local, conseguem ouvir as indicações, respeitar o silêncio durante as gravações e perceber que uma cena pode ter de ser repetida várias vezes.
A experiência serve também para descobrir aquilo que o cinema esconde de quem o vê apenas no resultado final: as claquetes, os takes repetidos, os tempos de espera e a preparação de cada plano.
“Há muito tempo morto, muito tempo de espera, e faz parte de um dia de filmagens”, explica Telmo Soares.
O envolvimento dos jovens começou, porém, muito antes da primeira câmara ser ligada. Houve uma passagem pelas escolas, inscrições e depois o casting. Para a equipa, esse percurso ajuda a explicar o empenho de quem chegou agora à rodagem.
No trabalho de construção das personagens, os jovens também têm espaço para dar opinião. Madalena, por exemplo, conversou com a equipa sobre a personagem que interpreta e sobre a forma como ela se relaciona com a realidade de uma adolescente de Baião.
“Estamos a escrever a história de uma forma exterior. Estamos a olhar para Baião de uma perspetiva exterior, e foi bom ouvi-la e perceber o que é que ela achava disso”, explica Telmo.

Essa proximidade estende-se aos restantes participantes. A equipa procura perceber como os próprios jovens fariam determinados movimentos, como interpretariam uma situação ou como reagiriam num determinado espaço. Afinal, há uma diferença que não pode ser ignorada: quem escreve e realiza o filme não tem 16 anos nem vive em Baião.
Contra o relógio e a chuva
Se os jovens têm sido uma surpresa positiva, há um adversário habitual das produções cinematográficas que não dá tréguas: o tempo.
“Estamos sempre numa luta contra o tempo”, admite Telmo Soares. Não apenas contra o relógio, mas também contra as condições meteorológicas.
Os dias de rodagem estão definidos, os atores têm de estar disponíveis e cada cena depende de uma logística que pode ser alterada em poucos minutos. Num dos dias, uma sequência prevista para o final da tarde, junto ao rio, teve de ser cancelada pela chuva.
É uma dificuldade transversal a qualquer produção. Mas rodar fora dos grandes centros também traz vantagens.
A equipa da Casota Collective está habituada a trabalhar em territórios menos urbanos e descobriu em Baião uma disponibilidade que facilita a produção. Quando é preciso encontrar uma pessoa, um espaço ou até um trator para uma determinada cena, a solução pode estar literalmente à porta.

“Todas as pessoas com quem temos falado têm sido super simpáticas”, conta Telmo.
É também dessa relação com o território que o filme pode retirar uma dimensão que ultrapasse a própria história.
A expectativa da equipa é que a curta tenha vida para lá da estreia no JUVE. Poderá, se o resultado final o justificar, procurar outros festivais e levar consigo não apenas a história criada em Baião, mas também imagens e ambientes de uma região que os espectadores de outros pontos do país poderão descobrir através do cinema.
Para os jovens envolvidos, porém, o impacto pode ser ainda mais próximo. Alguns poderão descobrir nesta experiência uma vocação que até agora existia apenas como curiosidade. Outros ficarão simplesmente com a memória de uns dias diferentes, passados entre câmaras, atores, técnicos, rios, esperas e repetição de cenas.
E há uma aprendizagem que David Santos gostaria que chegasse também ao público: depois de ver o filme, talvez alguém repare mais nos sons à sua volta.
Num território transformado temporariamente em cenário cinematográfico, Baião está, por estes dias, a ser filmado. Mas os jovens que estão diante da câmara também estão a aprender a olhar — e, neste caso, sobretudo a ouvir — o mundo de outra maneira.




